Atendimentos Individuais

 

Nós terminamos, apesar de todo nosso senso de realidade, por não distinguir o dia do sonho, como diria Rilke. E dessa confusão é que me foi saindo O Espelho Partido — caco a caco, mistura de biografia e ficção. Mas ao cabo um grande espelho da minha e de outras vidas, igualmente ásperas, um espelho de nossa época. Ele é muito camuflado. Nele se confundem o homem e o escritor sofrendo o mesmo drama — não saber para o que veio, não sabendo o que foi, não sabendo para onde irá e o que legar.

(Marques Rebelo)

Todo aquele que narra ou tenta narrar a sua vida busca a si mesmo em sua história, busca uma marca que lhe é própria. E como a nossa vida pessoal não é um dado, mas antes, um destino, aquele que narra a sua história busca então esse destino, que é único e que é seu de modo inalienável.

Os últimos séculos, contudo, parecem ter sido atingidos pela irrealidade, fazendo com que não possamos ou não consigamos viver e sentir as nossas vidas como próprias e inalienáveis. Pior ainda, parece que além de termos perdido ou desconhecermos completamente o hábito de contar a nossa própria história, nos encontramos cindidos, sentindo que nossas vidas estão em outro lugar que não em nós mesmos. Nos encontramos informes e, por isso, vulneráveis e cada vez mais dependentes da aprovação exterior.

Narrar a nossa história é um dos meios que possuímos de intervirmos nela, uma vez que é da própria narrativa que pode emergir a configuração de uma vida. No entanto, essa é uma das mais difíceis e complexas tarefas a que o homem pode se dedicar em nossos tempos. A narrativa de nossas vidas nos enche de perplexidade, pois à medida em que aprendemos a narrá-la, vamos adquirindo ou aprofundando a consciência que temos de nós mesmos, vamos conhecendo a nós mesmos. Esse conhecimento nos torna mais presentes à vida, aos outros, a nossa própria consciência, e carrega consigo algo do conhecimento da condição humana mesma, pois nele encontramos o bem e o mal, o belo e o feio, o certo e o errado, o puro e o impuro, a virtude e o vício, a ambigüidade e a mentira, que nos confrontam com a inexorável exigência de responsabilidade por tudo o que encontramos em nós mesmos. É somente o cumprimento dessa exigência que nos permite assumir as nossas vidas como nossas.

Bio-iatria

Há várias maneiras e métodos para se aprender a contar a própria história e a bio-iatria é só mais uma deles, criada por Luciane Amato a partir dos inúmeros ensinamentos recebidos do filósofo Olavo de Carvalho, e de mais de duas décadas de estudos em que o auxílio de educadores, psicólogos, críticos, romancistas e poetas foi fundamental.

O diferencial da bio-iatria é o desenvolvimento de um trabalho que tem como mediadores, predominantemente, obras narrativas de ficção e autobiografias, estabelecendo um diálogo entre a narrativa pessoal e essas narrativas ficcionais e autobiográficas. A bio-iatria opta por esses mediadores porque através deles podemos nos reconhecer, podemos nos lembrar de nós mesmos, e aprender não somente a dar uma forma às nossas próprias vidas como também, como diz Arnold Weinstein em seu Recovering Your Story, encontrar a nossa própria voz:

I need great books, have always needed them, for it is in these novels (that I read and teach and write about) that I find my own voice.

Convivendo com grandes obras ficcionais e lendo autobiografias, podemos gradualmente conquistar uma forma de narrativa que seja cada vez mais apropriada às nossas vidas, podemos encontrar alguma verdade que nos seja concernente, e que já foi vivida por outros homens de maneira mais ou menos similar, no sentido, mutatis mutandis, do que diz Ângelo Monteiro ao referir-se a José Rodrigues de Paiva: "poucos poetas em sua juventude, possuem a noção de que sua experiência, mesmo a mais subjetiva, representa, de algum modo, a continuidade de outras experiências."

bioiatria